sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Wer zuerst ankommt...




"1
Quem chegar primeiro
Sobe as persianas. Rega as plantas. Abre
De para em par as janelas.
Eu sou a que vai chegar acartando
Os feixes de lenha na cabeça.

2
Deixei ficar comida para aqueceres
Com a boca, com a fome.
Pede licença para saíres da mesa. Já te ensinei
Que múltiplos são os anjos que nos guardam –
Deves partilhar o teu pão.

3
Se vier a peixeira comprai verdinhos
Comprai-lhe a verdura dos anos
O modo como equilibra a canastra
E a contínua rebentação
Ajeitai-lhe a rodilha
Observai pelas guelras se são frescos os pregões
Não percais o troco como os ecos da distância

4
Chama os teus irmãos para a missa
Das onze. Este domingo são eles a tocar.
Chama-os com as trombetas do Juízo
Com as palmas com que enxoto as galinhas
Com a voz do que clama no deserto:
(Prepara-lhes o leite)
- Preparai os caminhos do Senhor

5
Lembra à tua irmã que os medicamentos do pai
Estão na gaveta do meio
Ele está todo o dia no meu pensamento
É aí que vireis ao meio-dia chamá-lo
Para comer

6
Quando vier a vossa avó buscar o crivo
Não deixeis que o seu puxo se desfaça
Com os ventos"

Daniel Faria,  Poesia, Lisboa: Assírio & Alvim, 2012, p. 318-9

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Ich wünsche dir Zeit!






"Ich wünsche dir nicht alle möglichen Gaben.
Ich wünsche dir nur, was die meisten nicht haben: 
Ich wünsche dir Zeit, dich zu freun und zu lachen, 
und wenn du sie nützt, kannst du etwas draus machen.

Ich wünsche dir Zeit für dein Tun und dein Denken, 
nicht nur für dich selbst, sondern auch zum Verschenken. 
Ich wünsche dir Zeit – nicht zum Hasten und Rennen, 
sondern die Zeit zum Zufriedenseinkönnen.

Ich wünsche dir Zeit – nicht nur so zum Vertreiben. 
Ich wünsche, sie möge dir übrig bleiben
als Zeit für das Staunen und Zeit für Vertraun 
anstatt nach der Zeit auf der Uhr nur zu schaun.

Ich wünsche dir Zeit, nach den  Sternen zu greifen, 
und Zeit, um zu wachsen, das heißt, um zu reifen.
Ich wünsche dir Zeit, neu zu hoffen, zu lieben. 
Es hat keinen Sinn, diese Zeit zu verschieben.

Ich wünsche dir Zeit, zu dir selber zu finden, 
jeden Tag, jede Stunde als Glück zu empfinden. 
Ich wünsche dir Zeit, auch um Schuld zu vergeben. 
Ich wünsche dir: Zeit zu haben zum Leben!"



                                         Elli Michler, Dir zugedacht, Don Bosco Verlag, München, 2004

domingo, 24 de janeiro de 2016

Himmelslicht






"És ao mesmo tempo o céu e o ninho.

Meu belo amigo, aqui no ninho, 
o teu amor prende a alma 
com mil cores, 
cores e músicas. 

Chega a manhã, 
trazendo na mão a cesta de oiro, 
com a grinalda da formosura, 
para coroar a terra em silêncio! 

Chega a noite pelas veredas não andadas 
dos prados solitários, 
já abandonados pelos rebanhos! 
Traz, na sua bilha de oiro, 
a fresca bebida da paz, 
recolhida 
no mar ocidental do descanso. 

Mas onde o céu infinito se abre, 
para que a alma possa voar, 
reina a branca claridade imaculada. 
Ali não há dia nem noite, 
nem forma, nem cor, 
nem sequer nunca, nunca, 
uma palavra!"

Rabindranath Tagore, O Céu e o Ninho, in "O Coração da Primavera" (http://www.citador.pt/)

Ein neuer Tag!




"Hier ist mein Garten bestellt, hier wart ich die Blumen der Liebe,
Wie sie die Muse gewählt, weislich in Beete verteilt.
Früchte bringenden Zweig, die goldenen Früchte des Lebens,
Glücklich pflanzt ich sie an, warte mit Freuden sie nun."


Johann Wolfgang von Goethe, Erotica Romana, Cavalo de Ferro Editores,2005, p. 10

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Überrascht





"Amamos o que nos surpreende e amamos o que ignoramos
Amamos o que devemos e o que não devemos e ao amar assim
o papel de coisas como a vela de um barco - o traçado da vida ou
a esteira do barco - enreda-se no mar inapreensível do acontecer"

Nuno Félix da Costa, o mar inapreensível in O desfazer das coisas e as coisas já desfeitas, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2015, p. 23

domingo, 17 de janeiro de 2016

Fünfte Stufe



"Esta luz ama a fronteira, aquilo que a sordidez doméstica se recusa a ver; tem a memória feita de fracturas; vem de um tempo que o presente continuamente alimenta com o seu terror; desvenda outras guerras, outras casas, outras enumerações. E não constrói poder algum: empobrece no que ilumina, até se transformar num objecto de luz.
Esta luz mostra-se, isto é, tem nas coisas uma luz que a mostra: o esplendor da rudeza; vive carregada do que queremos esquecer: das coisas que desabitámos, dos escombros do mundo, das pessoas que perdemos.
Esta luz ama os destroços. Porque é perto, de perto, que a beleza não encontra álibi."


Rui Nunes, O choro é um lugar incerto,Relógio d'Água:Lisboa, 2005, p. 35 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Vorabend 5





"Passei a noite em branco. De madrugada, cheguei a uma conclusão: antes remorso do que arrependimento. Quanto à culpa, e estando ela gravada em mim como uma doença com a qual temos de viver, só me restava aceitá-la e enterrá-la no fundo de mim,tentando esquecer o seu assédio."

  Valérie Tong Cuong, O Atelier dos Milagres, Barcarena: Marcador Editora. 2015, p. 111

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Glückliche Treffung






"São as pessoas como tu que fazem com que o nada queira dizer-nos algo, as coisas vulgares se tornem coisas importantes e as preocupações maiores sejam de facto mais pequenas. São as pessoas como tu que dão outra dimensão aos dias, transformando a chuva em delirante orvalho e fazendo do inverno uma estação de rosas rubras. 
As pessoas como tu possuem não uma, mas todas as vidas. Pessoas que amam e se entregam porque amar é também partilhar as mãos e o corpo. Pessoas que nos escutam e nos beijam e sabem transformar o cansaço numa esperança aliciante, tocando-nos o rosto com dedos de água pura, soltando-nos os cabelos com a leveza do pássaro ou a firmeza da flecha. São as pessoas como tu que nos respiram e nos fazem inspirar com elas o azul que há no dorso das manhãs, e nos estendem os braços e nos apertam até sentirmos o coração transformar o peito numa música infinita. São as pessoas como tu que não nos pedem nada mas têm sempre tudo para dar, e que fazem de nós nem ícaros nem prisioneiros, mas homens e mulheres com a estatura da vida, capazes da beleza e da justiça, do sofrimento e do amor. São as pessoas como tu que, interrogando-nos, se interrogam, e encontram a resposta para todas as perguntas nos nossos olhos e no nosso coração. As pessoas que por toda a parte deixam uma flor para que ela possa levar beleza e ternura a outras mãos. Essas pessoas que estão sempre ao nosso lado para nos ensinar em todos os momentos, ou em qualquer momento, a não sentir o medo, a reparar num gesto, a escutar um violino. São as pessoas como tu que ajudam a transformar o mundo."

Joaquim Pessoa, in "Ano Comum"

domingo, 10 de janeiro de 2016

Neue Fenster



"Eu não me sentia assustada: estava confusa. Os pensamentos sobrepunham-se sem tréguas, assaltavam-me, sufocavam-me. Para quê falar? (...) Teria de reconstruir a vida sem vida, reconquistar a rotina, redesenhar o vazio. Sentia-me tão cansada (...) De que lado fica o esquecimento?"

                                                                                                                                                          Valérie Tong Cuong, O Atelier dos Milagres, Barcarena: Marcador Editora. 2015, p.39

domingo, 3 de janeiro de 2016

Es ist, was es ist!



"É absurdo,
diz a razão.
É o que é,
diz o amor.

É uma desgraça,
diz o calculismo.
É sofrimento e nada mais,
diz o medo.
É em vão,
diz o juízo.
É o que é,
diz o amor.

É ridículo,
diz a angústia.
É uma aventura,
diz a prudência.
É impossível,
diz a esperança.
É o que é,
diz o amor."

Pedro Mexia, É o que é in Uma vez que tudo se perdeu, Lisboa: Tinta da China, 2015, p.50

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Am ersten Tag des Jahres




"Aceito, pois não foi assim.
Recupero em ideal.
Invento. Trocamos de lugar.

Se for preciso faço de Antígona
e digo que minha vida morreu
para que ajudasse os mortos."

Pedro Mexia, Elegia in Uma vez que tudo se perdeu, Lisboa: Tinta da China, 2015, p.10