terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Am Ende des Jahrzehnts 2





"E uma conversa quase concluída,
 a resposta ondulante:
 nunca te deixarei

 Para onde fores, irei também
 contigo, 
 onde habitares, farei
 o meu sustento

 Esse pacto havido
 desafiando
 tudo:
 o tempo a prolongar-se
 quase raso

 E da outra o lugar:
 já não estrangeiro:

 só humano,
 e da casa"

Ana Luísa Amaral, A Promessa, in Ágora. Porto: Assírio & Alvim. 2019: 29

Am Ende des Jahrzehnts 1






"Hoje é dia de respirar História e Escrituras, trazê-las como peixes
 Para a superfície do tanque.
 O fundo das frases. A diferente apresentação da boa notícia.
 Os ouvintes mergulhando na água, respirando a escassa sombra.
 Lugar e Lugares. Casa, morada, solo, pátria.
 Longa respiração, alegria de conhecer
 Âmago do poema."

Maria Teresa Dias Furtado, Onde o Poeta mora, Poética Edições, 2019: 57

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Unaussprechliches 3





"Se pudesse ter uma vida paralela, gostaria de ter a vida de um caracol, carregando comigo a casa e plantando-a onde houvesse sol e silêncio, onde houvesse mar e espaço, onde houvesse tempo e distância. Onde houvesse essa improvável e louca hipótese de ser feliz fora do mundo."

Miguel Sousa Tavares, Não se encontra o que se procura, Lisboa: Clube do Autor. 2014: 19

Unaussprechliches 2






"O corpo do poeta e o corpo do mar
Abraçam-se num amplexo líquido esmeralda
Dançam nas pequenas vagas vigorosas.
Como poderá o poeta escrever sobre o mar?
As palavras liquefazem-se,
A mão escapa-se para a areia
Onde rabisca palavras como
Sal, ondulação, baloiço, rebentação.
Retira-se do calor maior e já em casa,
Rasga no papel o som das ondas."

Maria Teresa Dias Furtado, Onde o Poeta mora, Poética Edições, 2019: 74

Unaussprechliches 1







"Declaro que conheci o Paraíso, quando o Paraíso era rocha, luz, água transparente como um filtro, um fundo de areia, ouriços e búzios intocado, e os  homens navegavam em barcos a remos, porque o tempo não tinha pressa e a beleza de tudo isto era tamanha que nos cegava."

Miguel Sousa Tavares, Não se encontra o que se procura, Lisboa: Clube do Autor. 2014: 49

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Geburtstag




"Sou só eu
mais ninguém
só eu aqui descentrada do mundo
neurótica e distópica
em curtos arremedos grosseiros
e vulgares"

Ana Luísa Amaral, "Gramática da 1ª Pessoa" in Inversos - Poesia 1990-2010, Alfragide: Publicações D. Quixote, p. 37

sábado, 10 de agosto de 2019

August





"«Ridículo», penso comigo mesma. «Não existe nada mais profundo que o amor. Nos contos infantis, as princesas beijam os sapos e eles transformam-se em príncipes. Na vida real, as princesas beijam os príncipes e eles transformam-se em sapos.»"

Paulo Coelho, Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei, Lisboa: Pergaminho, 2000:63

Juli




   "Os deuses jogam os dados e não perguntam se queremos participar no jogo. Não querem saber se deixámos um homem, uma casa, um trabalho, uma carreira, um sonho. Os deuses não ligam para o facto de que temos uma vida onde cada coisa tem o seu canto, onde cada desejo pode ser conseguido com trabalho e persistência. Os deuses não levam em conta os nossos planos, as nossas esperanças; em algum lugar do universo, eles jogam os dados - e você, por acaso, é escolhida. A partir daí, ganhar ou perder é uma questão de chance.
    Os deuses jogam os dados e libertam o Amor da sua jaula. A força que pode criar ou destruir - dependendo da direcção que o vento soprava no momento em que ela saiu da sua prisão."

Paulo Coelho, Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei, Lisboa: Pergaminho, 2000:78


Am Ende der Welt




(Finisterra, 10/06/2019)


"- Escreva tudo o que está a sentir. Tire da sua alma, escreva no papel e depois deite-o fora. A lenda diz que o Rio Piedra é tão frio que tudo o que cai nele - folhas, insectos, penas de aves - se transforma em pedra. Quem sabe não seria uma boa ideia deixar nas suas águas o sofrimento."

Paulo Coelho, Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei, Lisboa: Pergaminho, 2000:227

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Juni: Wiederbegegnung




    Tudo acaba mas o que te escrevo continua. O que é bom, muito bom. O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas. (...)
     Aquilo que ainda vai ser depois - é agora. Agora é o domínio de agora. E enquanto dura a improvisão eu nasço.
    E eis que depois de uma tarde de "quem sou eu" e de acordar à uma da madrugada ainda em desespero - eis que às três horas da madrugada acordei e me encontrei. Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulminação. Simplesmente eu sou eu. E você é você. É vasto, vai durar. (...)
    Olha para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo."

Clarice Lispector, Água Viva, Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 1990: 100-1


sábado, 20 de abril de 2019

Januar




"Anda desde manhã uma palavra 
a perseguir-me, a espreitar-me de longe 
em atitude nítida de posse, 
em clara posição de desafio"

Ana Luísa Amaral, "Espionagens Verbais" in Inversos - Poesia 1990-2010, Alfragide: Publicações D. Quixote, p. 35